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Esta obra nasce quando eu aceito olhar para a deficiência como parte central da minha pesquisa, mas sem seguir a imagem que muitas vezes se espera de uma obra sobre esse tema. No circuito artístico, parece existir uma expectativa de que o corpo com deficiência apareça de forma muito direta, por cenas médicas, imagens de dor ou sinais visíveis de deformidade. A minha experiência não se organiza tão facilmente. Vivo com a Síndrome de Marfan, uma condição genética rara, e meu corpo costuma ocupar um lugar ambíguo. Nem sempre sou lida como pessoa com deficiência no cotidiano, mas, no contexto médico, meu corpo passa a ser interpretado a partir do DNA, de exames e de previsões sobre o que pode acontecer comigo.
Nesta série, aproximo essa experiência do manguezal, uma paisagem que existe entre o rio e o mar, em um estado constante de adaptação. O mangue se tornou uma alegoria para pensar um corpo que não cabe inteiramente na ideia de normalidade, mas também não se deixa reduzir a uma única imagem de deficiência. Também me interessa a forma como tanto um corpo quanto uma paisagem podem ser lidos por dados, laudos, mapas e análises que tentam prever seu futuro. Há algo quase supersticioso nessa confiança de que um código possa explicar uma vida ou um território.
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This work began when I accepted the challenge of looking at disability as a central part of my research, but without following the image that is often expected from an artwork on this subject. In the art circuit, there seems to be an expectation that a disabled body should appear in a very direct way, through medical scenes, images of pain or visible signs of deformity. My experience does not fit so easily into that image. I live with Marfan Syndrome, a rare genetic condition, and my body often occupies an ambiguous place. In everyday life, I am not always read as a disabled person. In medical contexts, however, my body is often interpreted through DNA, exams and predictions about what may happen to me.
In this series, I bring this experience closer to the mangrove, a landscape that exists between river and sea, in a constant state of adaptation. The mangrove became an allegory for thinking about a body that does not fit entirely into the idea of normality, but also cannot be reduced to a single image of disability. I am also interested in how both a body and a landscape can be read through data, reports, maps and analyses that try to predict their future. There is something almost superstitious in the belief that a code can explain a life or a territory.
Fotos / Photos: Lonelas. 2025. Usina Cultural Energisa, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
Oráculo Serpentina começou a tomar forma durante uma imersão artística na residência Arapuca, no Conde, Paraíba, em um laboratório conduzido por Serge Huot. Durante esse processo, entramos em contato com o Manifesto do Rio Negro. O texto me fez pensar menos na natureza como tema e mais na forma como certas ideias de progresso podem transformar corpos e paisagens em lugares de intervenção. Uma paisagem pode ser alterada em nome do desenvolvimento. Um corpo com deficiência pode ser observado a partir de noções de correção, risco, progressão e regressão.
Foi a partir dessa relação que comecei a imaginar a serpentina como uma alegoria entre DNA e manguezal. A obra nasce de fotocolagens feitas com imagens do meu arquivo familiar, especialmente fotografias da infância, de um período em que eu ainda não tinha diagnóstico. Ao olhar para essas imagens, vejo um corpo que ainda não era lido como um corpo com deficiência, mas que já carregava no DNA muitas das previsões que depois seriam projetadas sobre ele. A serpentina aparece como essa linha instável entre festa e prognóstico, entre raiz exposta e código genético, entre brincadeira e tentativa de prever o futuro.
Serpentine Oracle began to take shape during an artistic immersion at Arapuca Residency, in Conde, Paraíba, Brazil, in a laboratory led by Serge Huot. During this process, we came into contact with the Manifesto do Rio Negro. The text led me to think of nature less as a theme and more through the way certain ideas of progress can turn bodies and landscapes into places of intervention. A landscape can be altered in the name of development. A disabled body can be observed through ideas of correction, risk, progression and regression.
From this relation, I began to imagine the streamer as an allegory between DNA and the mangrove. The work comes from photocollages made with images from my family archive, especially childhood photographs from a time when I had not yet been diagnosed. When I look at these images, I see a body that was not yet read as a disabled body, but that already carried in its DNA many of the predictions that would later be projected onto it. The streamer appears as this unstable line between celebration and prognosis, between exposed root and genetic code, between play and the attempt to predict the future.
Fotos / Photos: Lonelas. 2025.
A instalação reúne uma cadeira que não pode ser usada, almofadas impressas com fotocolagens e serpentinas que o público pode retirar. A cadeira parte de uma experiência concreta do meu corpo. Depois de uma cirurgia na coluna, em que foram colocados pinos de titânio nas minhas costas, sentar deixou de ser uma ação simples. Por isso, a cadeira aparece como um objeto contraditório. Ela sugere repouso, mas não oferece descanso.
As almofadas surgem como resposta a esse desconforto. Elas fazem parte do meu cotidiano, porque muitas vezes preciso delas para conseguir sentar. Nelas, as fotocolagens aparecem inteiras, como imagens de um corpo-paisagem em repouso. Já nas serpentinas, essas mesmas imagens são cortadas, fragmentadas e transformadas em tiras de papel. O público pode puxar essas tiras, ler uma mensagem oracular e levá-la consigo. Nesse gesto, a obra aproxima o oráculo da experiência médica. Assim como um exame ou um código pode anunciar riscos sobre o futuro de um corpo, a serpentina também entrega uma frase, uma previsão ou uma possibilidade. A diferença é que aqui essa leitura não aparece como certeza.
The installation brings together a chair that cannot be used, cushions printed with photocollages and paper streamers that visitors can pull out. The chair comes from a concrete experience of my body. After spinal surgery, in which titanium rods were placed in my back, sitting stopped being a simple action. For this reason, the chair appears as a contradictory object. It suggests rest, but does not offer comfort.
The cushions appear as a response to this discomfort. They are part of my everyday life, because I often need them in order to sit. On them, the photocollages appear in full, like images of a body-landscape at rest. In the streamers, these same images are cut, fragmented and transformed into strips. Visitors can pull one serpentine out, read an oracle message and take it with them. In this gesture, the work brings the oracle closer to the medical experience. Just as an exam or a code can announce risks about the future of a body, the oracle sepertine also offers a phrase, a prediction or a possibility. The difference is that here this reading does not appear as certainty.
Fotos / Photos: Pedro Anísio. 2025. Usina Cultural Energisa, João Pessoa, Paraíba, Brasil.
Ao longo de 2025 e 2026, realizei visitas ao manguezal de Bayeux, na Paraíba, como parte da expansão da série. A pesquisa, que começou com Oráculo Serpentina, ganhou novos desdobramentos a partir do contato direto com o território. A observação da lama, das raízes, da água e das estruturas do mangue me ajudou a pensar outras formas para a relação entre paisagem e corpo com deficiência.
A partir dessa imersão, surgiram novas obras da série, como Escada e a instalação de parede que leva o título do projeto. Objetos ligados à minha experiência física passaram a ser imaginados como parte de uma paisagem orgânica, próxima das formas do manguezal.
Essa etapa foi realizada com apoio da Política Nacional Aldir Blanc, que possibilitou a pesquisa de campo, a coleta de materiais, o registro fotográfico e o desenvolvimento de novas obras e de um manual educacional voltado a professores e contextos escolares.
Throughout 2025 and 2026, I visited the mangrove area of Bayeux, in Paraíba, Brazil, as part of the expansion of the series. The research, which began with Oracle Serpentine, unfolded further through direct contact with the territory. Observing the mud, the roots, the water and the structures of the mangrove helped me imagine new forms for the relationship between landscape and the disabled body.
From this immersion, new works in the series emerged, such as Ladder and the wall installation that gives the project its title. Objects connected to my physical experience began to be imagined as part of an organic landscape, close to the forms of the mangrove.
This stage was supported by the National Aldir Blanc Policy, which made possible the field research, the collection of materials, the photographic documentation, and the development of new works, as well as an educational manual for teachers and school contexts.
Fotos / Photos: Lonelas. 2025.
A Cadeira + Oraculo Serpentina 2025
Instalações
Metal, papel e 16 almofadas com sublimação; 40 serpentinas em papel
Dimensões variáveis
The Chair + Oracle Serpentine 2025
Installations
Metal, paper, and 16 sublimated cushions; 40 paper spertines.
Variable dimensions
Fotos / Photos: Lonelas. 2025.
Mangue: Ecos e Fantasmas 2025
Instalação
Fotografias fine art, metal, tinta acrílica, vidro com adesivo vinílico e barbantes pretos
Dimensões variáveis
Mangrove: Echoes and Phantoms 2025
Installation
Fine art photographs, metal, acrylic paint, glass with vinyl adhesive, and black strings.
Variable dimensions
Fotos / Photos: Lonelas. 2025.
Escada 2025
Instalação
Metal, tecido com impressão por sublimação a partir de fotografia experimental e projeção em vídeo
180 × 70 × 70 cm aprox. Vídeo, 3′
Ladder 2025
Installation
Metal, fabric with sublimation print from experimental photography, and video projection
180 × 70 × 70 cm approx. Video ” 3′
Fotos / Photos: Lonelas. 2025.
O manual educacional foi desenvolvido como contrapartida social do projeto. Trata-se de uma proposta pedagógica online voltada a professores, escolas e interessados em articular as obras da série em contextos educativos.
O material reúne sugestões de atividades, planos de aula e eixos transdisciplinares que conectam arte, biologia, geografia e língua portuguesa, tendo como base temas como memória, território, corpo e paisagem. O manual pode ser utilizado em sala de aula, oficinas ou práticas formativas, ampliando a circulação da obra e promovendo diálogos entre arte contemporânea e educação.
The educational manual was developed as the project’s social counterpart. It is an online pedagogical resource designed for teachers, schools, and anyone interested in engaging with the works of the series in educational contexts.
The material brings together activity suggestions, lesson plans, and transdisciplinary approaches that connect art, biology, geography, and language studies, based on themes such as memory, territory, body, and landscape. The manual can be used in classrooms, workshops, or educational practices, expanding the circulation of the work and fostering dialogue between contemporary art and education.
Please note: the full manual is currently available in Portuguese only.
Seleções e apoio
Fase de pré-projeto selecionada no II Entre II Arte e Acesso 2024–25, Itaú Cultural.
Pesquisa e desenvolvimento realizados com recursos da Fundação de Apoio a Pesquisa do Estado da Paraíba e Política Nacional Aldir Blanc, com operacionalização da Secretaria de Estado da Cultura do Governo da Paraíba. Paraíba, 25 de fevereiro de 2026.
Também selecionado para o projeto Lab Ocupação Artes Visuais, com recursos da Lei Rouanet, por meio da Energisa.
Selections and support
Pre-project phase selected for the II Entre II Art and Access 2024–25, Itaú Cultural.
Research and development carried out with resources from the Paraíba State Research Support Foundation and the Aldir Blanc National Policy, operationalized by the State Secretariat of Culture of the Government of Paraíba. Paraíba, February 25, 2026.
Also selected for the Visual Arts Occupation Lab project, with resources from the Rouanet Law, through Energisa.